Passei uma semana comparando coberturas eleitorais de três veículos grandes e dois regionais de São Paulo. O padrão se repetiu: mais de 60% das peças publicadas online tinham menos de um minuto de duração ou equivalente em texto — três parágrafos, uma foto, legenda forte. Reportagem de rua, aquela que exige duas horas em mercado municipal ouvindo vendedor e comprador, virou luxo.

Não é só falta de dinheiro em redação, embora isso pese. É escolha de formato. O feed premia reação, expressão facial, frase cortável. Quem sabe performar para câmera ganha espaço independentemente de proposta. Quem governa cidade pequena no interior e faz bom trabalho silencioso some.

O candidato como personagem de série

Em 2026, a pré-campanha parece reality show. Cada aparição é pensada para gerar clipe. Debaters aprendem a jogar para o corte do dia seguinte. Jornalistas, pressionados por métrica de engajamento, entregam exatamente o que a plataforma pede: algo que se compartilha antes de ser compreendido.

Testei isso na prática. Publiquei no meu perfil pessoal dois trechos do mesmo evento: um com declaração polêmica de 40 segundos e outro com explicação de cinco minutos sobre habitação. O primeiro teve doze vezes mais alcance. Não estou orgulhoso — só confirmando o incentivo estrutural.

O problema não é o vídeo curto em si. É o vídeo curto como substituto total da apuração.

O que se perde quando tudo vira feed

Perde-se contexto. Um candidato ataca outro em frase de efeito; a reportagem reproduz o ataque e chama de "climão". Falta perguntar: o ataque procede? Qual histórico? Quem financia as duas campanhas? Essas perguntas exigem tempo que o cronograma do feed não tem.

Perde-se também diversidade de voz. Em entrevistas longas, o entrevistado escorrega, contradiz, revela. Em clipe, ele entrega mensagem ensaiada. O eleitor acha que acompanhou campanha, mas viu trailer.

Os veículos regionais que ainda mandam repórter para bairro fora do eixo central fazem trabalho essencial — e operam com equipe mínima. Um deles, em Santo Amaro, me contou que precisou escolher entre cobrir audiência na Câmara Municipal ou feira livre na mesma tarde. Escolheu a Câmara porque "gera mais clique". A feira ficou para o mês seguinte, quando o assunto já tinha esfriado.

Plataformas e redações casadas ao algoritmo

Redes sociais não são neutras. Elas ranqueiam emoção, não complexidade. Quando redação terceiriza estratégia para o algoritmo, terceiriza também prioridade editorial. O editor deixa de perguntar "o que o público precisa saber?" e passa a perguntar "o que vai estourar em duas horas?".

Há exceções luminosas — podcasts longos, newsletters aprofundadas, documentários em streaming. Mas o grosso da cobertura eleitoral gratuita ainda flui pelo formato curto. E o eleitor menos conectado, que depende de TV aberta e rádio, recebe versão ainda mais condensada do mesmo recorte.

O que dá para fazer diferente

Não vou propor voltar ao jornal impresso de 1998. Proponho combinar formatos com honestidade. Clipe para quem só tem um minuto; link para reportagem completa logo abaixo, no mesmo pacote, com a mesma hierarquia visual. Não esconder o texto longo em aba secundária.

Segundo: diversificar quem aparece na câmera. Menos repetir o mesmo analista em loop; mais voz de quem vive política fora do estúdio. Terceiro: métricas internas que valorizem tempo de leitura e retorno do leitor, não só compartilhamento.

A cobertura eleitoral de 2026 ainda pode melhorar — mas só se redações admitirem que o feed é ferramenta, não destino final. Caso contrário, vamos eleger mais um ciclo de personagens bem iluminados e propostas mal explicadas. E depois vamos fingir surpresa quando o voto surpreende.